Fumo - Florbela Espanca


Fumo
(Florbela Espanca)

Longe de ti são ermos os caminhos, 
Longe de ti não há luar nem rosas; 
Longe de ti há noites silenciosas, 
Há dias sem calor, beirais sem ninhos! 

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos 
Perdidos pelas noites invernosas... 
Abertos, sonham mãos cariciosas, 
Tuas mãos doces plenas de carinhos! 

Os dias são Outonos: choram... choram... 
Há crisântemos roxos que descoram... 
Há murmúrios dolentes de segredos... 

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços! 
E ele é, ó meu amor pelos espaços, 
Fumo leve que foge entre os meus dedos... 

Ah, não há saudades... - Bernardo Soares


Bernardo Soares - Livro do Desassossego 

Yo solia pensar... - Frida Kahlo


O que diz a morte - Antero de Quental


O que diz a morte
(Antero de Quental)

Deixai-os vir a mim, os que lidaram; 
Deixai-os vir a mim, os que padecem; 
E os que cheios de mágoa e tédio encaram 
As próprias obras vãs, de que escarnecem... 

Em mim, os Sofrimentos que não saram, 
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem. 
As torrentes da Dor, que nunca param, 
Como num mar, em mim desaparecem. - 

Assim a Morte diz. Verbo velado, 
Silencioso intérprete sagrado 
Das cousas invisíveis, muda e fria, 

É, na sua mudez, mais retumbante 
Que o clamoroso mar; mais rutilante, 
Na sua noite, do que a luz do dia.